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domingo, 23 de agosto de 2015

De repente, na lojinha de orgânicos

Imagem: Artigo da revista Biocontact jul-ago/2015. 
Por Flávia Gouveia.

Como de costume, passei na lojinha de produtos orgânicos (chamados produtos "Bio" aqui na França) e peguei a revista gratuita Biocontact, que fala de assuntos ligados à sustentabilidade, alimentação e bem estar. A capa anuncia o dossiê da edição, que questiona os automóveis e aborda meios de transporte alternativos.

Na página 54, um artigo intitulado "Agrocombustíveis: ineficazes para o clima, perigosos para as populações", de Armelle Le Comte, encarregada de advogar sobre questões climáticas e de energia fóssil para a Oxfam França*.

O artigo cita inicialmente a promessa dos agrocombustíveis em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e contribuir para a segurança energética dos países produtores, mas em seguida apresenta uma série de críticas, como a ameaça dos agrocombustíveis à segurança alimentar e à biodiversidade, cadeias produtivas dependentes de combustíveis fósseis e incentivos fiscais que representam perdas de arrecadação para atender ao lobby dos produtores.

O texto critica também a falta de critérios de sustentabilidade por parte da União Europeia para a determinação do percentual de agrocombustíveis de primeira geração adicionado aos combustíveis tradicionais (7% até 2020) e termina com recomendações em defesa de agrocombustíveis sofisticados produzidos a partir de dejetos não recicláveis ou que não requeiram terras ou matérias-primas necessárias à agricultura.

Embora o foco do artigo seja a França e a Europa, o tom é geral, mencionando ainda consequências danosas para os países do Sul. A autora aponta que "o impacto negativo das políticas de apoio aos agrocombustíveis é reconhecido pelo conjunto da comunidade científica e denunciado pela sociedade civil internacional".

Fazendo um paralelo com o Brasil, observa-se que o debate acerca da sustentabilidade do etanol de cana brasileiro tem algumas características semelhantes ao debate europeu sobre agrocombustíveis, mas tem também suas particularidades. De toda forma, a discussão internacional representa uma importante influência sobre as discussões brasileiras, como se verá na COP 21, entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro, em Paris.

Estou curiosa para ver como as lojinhas de produtos orgânicos e outros ambientes de alcance público divulgam informações sobre o tema no Brasil, se é que divulgam.
Quem quiser pode ler o artigo na íntegra (em francês) por meio deste link (1).

* A Oxfam França é membro da confederação Oxfam, uma organização internacional de desenvolvimento que mobiliza o poder cidadão contra a pobreza. Trabalha em mais de 90 países a fim de encontrar soluções sustentáveis para colocar fim às inustiças que engendram a pobreza. Seu braço francês atua há 25 anos  em campanhas de mobilização cidadã e de pressão sobre formuladores de políticas.