domingo, 23 de agosto de 2015

De repente, na lojinha de orgânicos

Imagem: Artigo da revista Biocontact jul-ago/2015. 
Por Flávia Gouveia.

Como de costume, passei na lojinha de produtos orgânicos (chamados produtos "Bio" aqui na França) e peguei a revista gratuita Biocontact, que fala de assuntos ligados à sustentabilidade, alimentação e bem estar. A capa anuncia o dossiê da edição, que questiona os automóveis e aborda meios de transporte alternativos.

Na página 54, um artigo intitulado "Agrocombustíveis: ineficazes para o clima, perigosos para as populações", de Armelle Le Comte, encarregada de advogar sobre questões climáticas e de energia fóssil para a Oxfam França*.

O artigo cita inicialmente a promessa dos agrocombustíveis em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e contribuir para a segurança energética dos países produtores, mas em seguida apresenta uma série de críticas, como a ameaça dos agrocombustíveis à segurança alimentar e à biodiversidade, cadeias produtivas dependentes de combustíveis fósseis e incentivos fiscais que representam perdas de arrecadação para atender ao lobby dos produtores.

O texto critica também a falta de critérios de sustentabilidade por parte da União Europeia para a determinação do percentual de agrocombustíveis de primeira geração adicionado aos combustíveis tradicionais (7% até 2020) e termina com recomendações em defesa de agrocombustíveis sofisticados produzidos a partir de dejetos não recicláveis ou que não requeiram terras ou matérias-primas necessárias à agricultura.

Embora o foco do artigo seja a França e a Europa, o tom é geral, mencionando ainda consequências danosas para os países do Sul. A autora aponta que "o impacto negativo das políticas de apoio aos agrocombustíveis é reconhecido pelo conjunto da comunidade científica e denunciado pela sociedade civil internacional".

Fazendo um paralelo com o Brasil, observa-se que o debate acerca da sustentabilidade do etanol de cana brasileiro tem algumas características semelhantes ao debate europeu sobre agrocombustíveis, mas tem também suas particularidades. De toda forma, a discussão internacional representa uma importante influência sobre as discussões brasileiras, como se verá na COP 21, entre os dias 30 de novembro e 11 de dezembro, em Paris.

Estou curiosa para ver como as lojinhas de produtos orgânicos e outros ambientes de alcance público divulgam informações sobre o tema no Brasil, se é que divulgam.
Quem quiser pode ler o artigo na íntegra (em francês) por meio deste link (1).

* A Oxfam França é membro da confederação Oxfam, uma organização internacional de desenvolvimento que mobiliza o poder cidadão contra a pobreza. Trabalha em mais de 90 países a fim de encontrar soluções sustentáveis para colocar fim às inustiças que engendram a pobreza. Seu braço francês atua há 25 anos  em campanhas de mobilização cidadã e de pressão sobre formuladores de políticas.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cana, etanol e o agronegócio em canções

Imagem: Morguefile

Ao longo da história, a produção da cana-de-açúcar e de seus derivados no Brasil tem recebido também a atenção de pessoas ligadas à produção artística do país. Obras literárias, músicas, sambas-enredo, telenovelas...

E como ocorre em outras áreas, nesta a controvérsia também está presente. Com um passado marcado pela escravidão, as críticas a esse período são evidentes, como se observa na canção Canto da plantação, de Sá, Rodrix e Guarabyra:
Carro de boi descendo a plantação
Levando a cana toda pro patrão
Carro de boi não sabe quem plantou
Carro de boi não sabe quem colheu
Nem quanta coisa que o negro penou
Nem quanta vida chicote comeu
Só pra levar a cana pro senhor
Ah, senhor, braço do negro quer se descansar
Largar a foice e partir pra Aruanda
Sem capitão do mato pra pegar
Ah , senhor tira esse negro da terra cansada
Longe da roda do carro gemendo, gemendo
Sempre a mesma toada.
Após a guinada nos carros flex em 2003, no ano seguinte, a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro aceitou a proposta de patrocínio de um grupo de usineiros para homenagear a cana-de-açúcar e o etanol brasileiros, conforme informações da revista científica Brasiliana, da Fiocruz. Naquele ano, a escola ficou classificada em 6º lugar.
A letra, de autoria de Leonel, Luizinho Professor, Serginho 20, Sidney Sã e Professor Newtão, diz assim:
"Caminha" descrevendo nossa terra
Veio da Índia inspiração para o cultivo
Que davam fim a liberdade do nativo
Terra de fartura coberta de cana
Canaã, por natureza
Negro, do açúcar mascavo
Branco toque refinado
Da cobiça holandesa
Academia, é doce seu cantar
Verde eldorado, o encanto "deste lado"
Solo fértil pro meu samba germinar
Pelo tempo, adoçou a economia
Com a evolução, ganhou outro "sabor"
O álcool, o progresso movia
Coisa que Caminha nem imaginou
E mesmo sem destronar o ouro negro
Já desvendaram seus segredos
O nosso jeito de abastecer
Sonho vê-lo enfim em seu reinado
Meio ambiente preservado
Conquistando o "espaço, infinito alvorecer"
A cana que aqui se planta, tudo dá
Dá samba até o dia clarear
O combustível do futuro é brasileiro
É energia que hoje embala meu Salgueiro
Conformando a controvérsia recente, cito a canção Reis do Agronegócio, do último álbum de Chico César, lançado em 2015. Não é uma canção dedicada especialmente à cana ou ao etanol, mas aborda o agronegócio, incluindo o sucroenergético. A letra, de Carlos Rennó, é bastante extensa. Se preferir ouvir, segue o vídeo; depois, a letra.

Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno
Vocês que aumentam todo ano sua posse
E que poluem cada palmo de terreno
E que possuem cada qual um latifúndio
E que destratam e destroem o ambiente
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente
Vocês desterram povaréus ao léu que erram
E não empregam tanta gente como pregam
Vocês não matam nem a fome que há na Terra
Nem alimentam tanto a gente como alegam
É o pequeno produtor que nos provê
E os seus deputados não protegem, como dizem
Outra mentira de vocês, Pinóquios véios
Vocês já viram como tá o seu nariz, heim? 
Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve
Sem o agrebiz feroz, desenvolvimentista
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista
É o que diz aquele que vocês não ouvem
O cientista, essa voz, a da ciência
Tampouco a voz da consciência os comove
Vocês só ouvem algo por conveniência
Para vocês, que emitem montes de dióxido
Para vocês, que têm um gênio neurastênico
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”
Vocês se elegem e legislam feito cínicos
Em causa própria ou de empresa coligada
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos
Que bancam cada deputado da bancada
Até comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube
Inclui até quem é racista e homofóbico
Vocês abafam, mas tá tudo no YouTube
Vocês que enxotam o que luta por justiça
Vocês que oprimem quem produz e quem preserva
Vocês que pilham, assediam e cobiçam
A terra indígena, o quilombo e a reserva
Vocês que podam e que fodem e que ferram
Quem represente pela frente uma barreira
Seja o posseiro, o seringueiro ou o sem-terra
O extrativista, o ambientalista ou a freira
Vocês que criam, matam cruelmente bois
Cujas carcaças formam um enorme lixo
Vocês que expulsam peixes, caracóis
Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho
E que rebaixam planta, bicho e outros entes
E acham pobre, preto e índio “tudo” chucro
Por que dispensam tal desprezo a um vivente?
Por que só prezam e só pensam no seu lucro? 
Eu vejo a liberdade dada aos que se põem
Além da lei, na lista do trabalho escravo
E a anistia concedida aos que destroem
O verde, a vida, sem morrer com um centavo
Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes
Tal como eu vejo com amor a fonte linda
E além do monte o pôr-do-sol porque, por sorte
Vocês não destruíram o horizonte ainda
Seu avião derrama a chuva de veneno
Na plantação e causa a náusea violenta
E a intoxicação “ne” adultos e pequenos
Na mãe que contamina o filho que amamenta
Provoca aborto e suicídio o inseticida
Mas na mansão o fato não sensibiliza
Vocês já não ´tão nem aí co´aquelas vidas
Vejam como é que o Ogrobiz desumaniza 
Desmata Minas, Amazônia, Mato Grosso
Infecta solo, rio, ar, lençol freático
Consome, mais do que qualquer outro negócio
Um quatrilhão de litros d´água, o que é dramático
Por tanto mal, do qual vocês não se redimem
Por tal excesso que só leva à escassez
Por essa seca, essa crise, esse crime
Não há maiores responsáveis que vocês 
Eu vejo o campo de vocês ficar infértil
Num tempo um tanto longe ainda, mas não muito
E eu vejo a terra de vocês restar estéril
Num tempo cada vez mais perto, e lhes pergunto
O que será que os seus filhos acharão de vocês
Diante de um legado tão nefasto?
Vocês que fazem das fazendas hoje um grande deserto verde
Só de soja, de cana ou de pasto
Pelos milhares que ontem foram e amanhã serão
Mortos pelo grão-negócio de vocês
Pelos milhares dessas vítimas de câncer
De fome e sede, fogo, bala, e de AVCs
Saibam vocês que ganham “c'um” negócio desse
Muitos milhões, enquanto perdem sua alma
Que eu me alegraria se, afinal, morresse
Esse sistema que nos causa tanto trauma
Que a mim não faria falta se vocês morressem
Saibam que não me causaria nenhum trauma
Que eu me alegraria se, afinal, morresse
Esse sistema que nos causa tanto trauma
Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno...

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Carros elétricos e etanol

Imagem: veículos elétricos Autolib' em Paris.  Por Flávia Gouveia.

Os veículos elétricos têm ganhado mercado nos últimos anos. No Japão, representam 11% da frota, nos Estados Unidos, 4%, e no Brasil, apenas 0,04%, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) informados pelo portal Uai. De acordo com o portal, além de serem considerados uma alternativa menos poluente que os veículos a combustão, movidos a gasolina, diesel e etanol, o custo de cada quilômetro rodado com um veículo elétrico é menor.

Japão, Estados Unidos, Alemanha, França, Coreia do Sul e China dominam a tecnologia dos veículos elétricos. O Brasil não desenvolve nem produz carros elétricos, apesar de fabricantes de carros elétricos no mercado mundial possuírem plantas no Brasil (que se dedicam a veículos a combustão). É o que explica o pesquisador Edgar Barassa  que defendeu a dissertação de mestrado “Trajetória tecnológica do veículo elétrico: atores, políticas e esforços tecnológicos no Brasil”, pelo Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas – em reportagem do Jornal da Unicamp.

A prevalência dos veículos a combustão no Brasil e a ampla infraestrutura de distribuição de combustíveis dificultam a inserção dos veículos elétricos, que requerem eletropostos e baterias eficientes, capazes de conferir uma boa autonomia e vida útil compatível com parâmetros de sustentabilidade. O custo ainda é muito alto, comparado ao de veículos a combustão. Para se ter uma ideia, o veículo híbrido Toyota Prius custa cerca de R$ 90 mil. Ainda assim, o preço caiu consideravelmente: era de R$ 125 mil antes de 2014, quando os híbridos foram incorporados à política setorial do Inovar-Auto – Sistema de Acompanhamento do Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores, que prevê desconto no imposto de importação.

A fabricação de carros elétricos no Brasil ganhou recentemente um incentivo por meio do Projeto de Lei 156/2015, de autoria do deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP), que visa à isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) e do Imposto de Importação (II) sobre a comercialização de máquinas, equipamentos, estruturas e outros componentes necessários à fabricação de carros elétricos. O projeto, apresentado em fevereiro deste ano, aguarda a tramitação.

O papel do etanol

Diante do crescimento do mercado de veículos elétricos, como fica o papel do etanol combustível, produzido em larga escala no Brasil? A resposta não é trivial. De acordo com Stella K. Li, presidente da divisão automotiva da BYD (empresa produtora de baterias e veículos elétricos), em entrevista à Folha de S. Paulo de 7 junho de 2014, o carro elétrico é mais sustentável que o movido a etanol. Ela aponta dois problemas relacionados ao etanol: (i) a oscilação de preço decorrente da possibilidade de se transformar a cana também em açúcar e (ii) a característica limpa da energia gerada pelas hidroelétricas no Brasil, o que favorece a sustentabilidade do carro elétrico.

Porém, em 15 de novembro de 2013, o Estadão publicou uma matéria no sentido oposto, tendo como primeiro parágrafo o seguinte texto:
O carro elétrico não é a melhor solução para melhorar o meio ambiente no Brasil - na opinião dos presidentes de duas das maiores fábricas de veículos do Brasil, a Mercedes-Benz e a Fiat. Para eles, o carro a etanol é a mais viável e eficiente alternativa para reduzir a poluição no Brasil.
Os argumentos em defesa do etanol repousam em sua eficiência, infraestrutura adequada e benefícios ambientais. A controvérsia pode ser também observada neste texto de Juan Lourenço, criador do site eco4planet, que apresenta a visão pró-etanol e em seguida argumenta contra.

Entretanto, há quem proponha uma convivência simbiótica entre carro elétrico e etanol no contexto de aumento da demanda do biocombustível no Brasil sem acompanhamento pela oferta. É o que se observa neste artigo do engenheiro Luiz Carlos Porto, diretor técnico da Silva Porto Consultoria Ambiental, publicado em outubro de 2011 no site do escritório de advocacia Brummer. Segundo Luiz Carlos, o carro elétrico tende a ganhar mercado sobre os carros movidos a etanol no Brasil. Porém, ele argumenta que "a eficiência energética das turbinas de geração de energia a etanol é muito maior do que a dos carros. E a eficiência do motor elétrico é muito maior do que a do motor a combustão interna". Assim, o uso do etanol para a geração de energia elétrica poderia ser um aliado na disseminação do carro elétrico no mercado brasileiro.

domingo, 31 de maio de 2015

Inovações em energia solar buscam sustentabilidade

Imagem: Morguefile

De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda energética mundial irá crescer em um terço nos próximos vinte anos, sendo os países em desenvolvimento responsáveis por 90% desse crescimento. Os combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) são a origem de grande parte da energia consumida no mundo. Apesar de seus reconhecidos efeitos prejudiciais ao meio ambiente e à saúde, esses combustíveis recebem subsídios da ordem de 6,5% do PIB global (US$ 5,3 trilhões), conforme estimativa do FMI. O cálculo inclui os danos causados pela poluição do ar ​​às populações locais e efeitos das alterações climáticas como inundações, secas e tempestades, informa matéria veiculada no Jornal GGN.

Diante dessa realidade, inovações revolucionárias estão em marcha para fazer frente à dependência energética mundial pelas fontes de origem fóssil. No dia 30 de abril, a Tesla, produtora de veículos elétricos por meio da Tesla Motors, lançou a bateria Tesla Powerall, que promete usar a energia solar para tornar as casas totalmente independentes da energia elétrica tradicional, baseada em combustíveis fósseis. A entusiasmante inovação já recebe críticas quando a sua viabilidade, como se observa nesta matéria do IDGNOW!

Apostando também na energia solar, a Caterpillar Inc. lançou este mês uma aliança estratégica com a First Solar para desenvolver microgrids fotovoltaicos para as cidades afastadas, minas, ilhas e instalações industriais nas áreas atualmente sem eletricidade. Segundo matéria do GreenBiz, as novas tecnologias de microgrid podem contribuir com o fornecimento de eletricidade para 19% da população mundial que hoje não têm acesso a esse recurso. No lado crítico, este texto aponta desvantagens dos painéis solares.

No âmbito dos transportes, a ampliação da oferta de energia elétrica de origem solar, renovável e defendida como sustentável, leva a se pensar na solução do carro elétrico. O carro elétrico e o papel do etanol diante desse mercado em ascensão será o tema do meu próximo post. Aguarde!

domingo, 26 de abril de 2015

Sustentabilidade para a bioenergia

Imagem: http://www.publicdomainpictures.net/

Foi lançado no dia 14 de abril na sede da FAPESP o relatório Bioenergy & Sustainability: Bridging the Gaps, resultado de análises sobre a sustentabilidade da produção e do uso da bioenergia desenvolvidas nos últimos dois anos por 137 especialistas de 24 países e 82 instituições.

Os tópicos investigados incluem o uso da terra, fontes de biomassa para bioenergia, integração com a agricultura e silvicultura, água e solo, emissões de gases de efeito estufa, impacto dos biocombustíveis sobre a biodiversidade e os serviços ambientais, assim como questões sociais e econômicas.

Entre as conclusões do estudo, destaca-se que os sistemas de produção de bioenergia com base em práticas sustentáveis ​​podem ajudar a compensar as emissões de gases de efeito estufa resultantes de mudanças de uso da terra ou perda de biodiversidade. As tecnologias e procedimentos compreendem combinações de diferentes matérias-primas, uso de co-produtos, integração da bioenergia com a agricultura, intensificação das pastagens (áreas menores para os rebanhos), zoneamento agro-ecológico, planejamento da paisagem, melhorias na produtividade e outras práticas de gestão da terra adaptadas às condições locais.

Os autores também afirmam que há terras suficientes disponíveis em todo o mundo para a expansão do cultivo de biomassa, sendo a maior parte na América Latina e na África, e que a utilização dessas áreas para a produção de bioenergia não representaria uma ameaça para a segurança alimentar e biodiversidade sob certas condições. Além disso, apresentam evidências de que as tecnologias de melhoria do solo, integração da cadeia de produção e uso de subprodutos de bioenergia em áreas rurais pobres poderia impulsionar o desempenho econômico, melhorar a qualidade dos alimentos, reduzir a poluição e criar empregos.

O trabalho foi coordenado por cientistas ligados a programas de pesquisa da FAPESP em Bioenergia (BIOEN), Mudança Global do Clima (RPGCC), e da Biodiversidade (BIOTA), e teve apoio da FAPESP e do Comitê Científico sobre Problemas do Meio Ambiente (SCOPE), uma organização internacional não governamental. O relatório completo pode ser baixado gratuitamente neste link: http://bioenfapesp.org/scopebioenergy/index.php/chapters

Enquanto isso, na Holanda

Já que o tema deste blog são as controvérsias, ressalto que na mesma semana do lançamento da publicação na FAPESP, aconteceu na Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda, a conferência Biofuels and (ir)responsible innovation, da qual participei apresentando um levantamento histórico do caso brasileiro. Foram apresentados trabalhos e ministradas palestras destacando-se aspectos controversos, promessas e perigos da produção de biocombustíveis para a sustentabilidade, bem como o papel das inovações para promover o desenvolvimento sustentável.

Os estudos apresentados envolveram biocombustíveis de origens diversas (como jatrofa, cana-de-açúcar, soja e palma) produzidos em vários locais, como Reino Unido, Guatemala, Brasil, Turquia, Vietnam, Benin, Burkina Faso, Senegal, Mali, Colômbia e Índia. Temas transversais também foram discutidos. Uma controvérsia muito presente nas discussões do evento foi a que trata da segurança alimentar, expressa na competição entre alimentos e biocombustíveis, em diversos países. De maneira geral, apesar das especificidades de cada local, os temas controversos são recorrentes, incluindo, além da segurança alimentar, discussões sobre as emissões de GEE, certificações, biodiversidade, impactos sociais, entre outros.

No que tange às particularidades locais, as avaliações sobre resultados da produção dos biocombustíveis na sustentabilidade e formas de melhorar esses resultados devem considerar os contextos específicos, características das biomassas e ensinamentos da evolução histórica. A multidisciplinaridade dos participantes e a variedade de aspectos considerados indicaram a importância da união de conhecimentos de diferentes áreas para pensar o tema e soluções pertinentes. Observou-se que o diálogo entre profissionais com diferentes formações deve ser exercitado de forma cooperativa, tal como foi proposto pelos organizadores do evento, em uma atividade realizada em grupos.

Durante o evento, a palestrante Janske van Eijck distribuiu exemplares de seu livro Socio-Economic Impacts of Biofuels in Developing Countries, que pode ser obtido em versão eletrônica neste link. O livro abrange um amplo conjunto de países e tipos de biocombustíveis, e aponta rumos para as ações e pesquisas na área.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Etanol 2G: sucesso para quando?

Imagem gratuita: http://pixabay.com

As discussões recentes em torno do etanol de segunda geração versam principalmente sobre sua capacidade de atender a demandas por um combustível de custo atrativo e de caráter sustentável. A edição de dezembro de 2014 da revista CanaOnline traz a reportagem de capa Etanol muito mais verde!, que destaca como o etanol celulósico é ambientalmente mais performático que o etanol de cana-de-açúcar e mais rentável quando produzido de forma integrada à produção de primeira geração.

O exemplo de destaque é a usina Costa Pinto, em Piracicaba, primeira planta de etanol 2G do Grupo Raízen (formado pela fusão entre o conglomerado brasileiro Cosan e a empresa anglo-holandesa Shell). A matéria-prima utilizada no momento é a palha e o bagaço da cana, mas futuramente poderá utilizar biomassa de milho, trigo, cavado de madeira e eucalipto. De acordo com a reportagem, uma planta de etanol 2G possui pegada de carbono 15 vezes menor que uma planta de etanol 1G. 

Na semana passada, a Agência Estado publicou notícia veiculada no portal novaCana informando que o Banco Nacional de Desenvolvimento e Econômico e Social (BNDES) divulgou um estudo em que mostra que o custo de produção do etanol 2G, feito de palha e bagaço de cana, ficará abaixo do 1G até 2020. As estimativas para daqui a cinco anos são de que os valores atuais, próximos de R$ 1,50 (2G) e R$ 1,10 (1G), caiam para valores entre R$ 0,70 e R$ 0,50 (2G) e R$ 0,90 e R$ 0,70 (1G). Quanto ao rendimento, o 2G pode chegar a 17 mil litros por hectare de cana, contra 6,9 mil litros/ha no caso do 1G.

Durante o seminário Sugar & Ethanol Brazil, realizado pela F.O. Lichts em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de março, o gerente de desenvolvimento de negócios da empresa de especialidades químicas Clariant afirmou que o etanol de segunda geração (2G), feito a partir do bagaço e da palha de cana-de-açúcar, tem espaço para crescer no Brasil, tornando o País "um dos maiores do mundo nesse mercado", conforme matéria do Estadão Conteúdo veiculada no Portal Exame.

Assim, o etanol 2G seria a tendência dos biocombustíveis no futuro próximo. Entretanto, matéria publicada ontem no novaCana afirma:
Com uma produção ainda marginal, resultado do início da operação de algumas usinas no Brasil, Estados Unidos e Itália, o etanol celulósico vive um momento delicado. Nota-se, claramente, um ajuste de expectativas sobre os prazos de desenvolvimento do combustível pelo mundo e desânimo em relação às perspectivas de curto e médio prazo.
O texto cita declarações feitas no Sugar & Ethanol Brazil, segundo as quais a tecnologia do etanol 2G ainda está cercada de incertezas e a produção ainda não se viabilizou em larga escala. A planta de etanol 2G da Petrobras, que integraria o grupo de empresas com previsão de inaugurar plantas de etanol 2G em 2015, suspendeu os planos do projeto face à crise institucional decorrente das denúncias de corrupção envolvendo a empresa.

Para discutir o atual mercado do etanol de segunda geração, bem como sua possibilidade de aumentar a produtividade e gerar maiores rendimentos para o setor, o BNDES realizará no dia 7 de abril, no Rio de Janeiro, o seminário de Avaliação do Potencial Competitivo do Etanol 2G no Brasil. Veja a Programação aqui.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Entrevista com o Prof. Sergio Salles Filho


Este mês será lançado o livro Futuros do Bioetanol: O Brasil na Liderança?, produzido por pesquisadores do Núcleo de Apoio à Gestão da Inovação para a Sustentabilidade no Setor Sucroenergético (Nagise) e organizado pelo professor Sergio Salles Filho, do Instituto de Geociências da Unicamp e coordenador do núcleo. O estudo em nove capítulos analisa como a inovação tecnológica e não tecnológica ocorre no setor e como deverá alterar as características produtivas e mercadológicas do etanol nos âmbitos nacional e global.

Entre as atividades que deram subsídio ao livro está o esforço sistemático do grupo para a capacitação e o diagnóstico do tema de inovação e de gestão da inovação junto a 35 unidades produtivas representando 58 empresas e grupos do setor que, juntos, respondem por cerca de um terço da produção nacional de etanol.

Além do lançamento em São Paulo, dia 25 de fevereiro (Livraria Cultura, Conjunto Nacional, às 18h30), haverá lançamentos em Recife, Brasília e Limeira ao longo do mês de março, com data e local a definir (assim que eu souber, atualizo aqui).

No dia 12 de fevereiro, conversei com o Prof. Sergio Salles sobre a pesquisa e seus resultados, organizados no livro. Eis a entrevista.

1) Entre os diversos possíveis futuros para o etanol apontados no livro, quais o Sr. considera os mais desejáveis e quais os mais prováveis?

Não é possível falar de probabilidade para cenários. O grau de incerteza é tão alto que torna impossível qualquer previsão. O futuro deverá ser uma combinação dos cenários construídos, dificilmente um deles será a realidade no futuro. Hoje há duas questões interconectadas mais importantes sobre o futuro do bioetanol, ambas difíceis de solucionar: a transformação do etanol em uma commodity e a segunda geração.

A mais difícil delas é a ampliação do etanol na matriz energética no mundo, que significa transformar o etanol em uma commodity. Até 2010-2011 havia uma perspectiva muito otimista para o etanol no Brasil, de que cresceria seu peso na matriz energética e de que a liderança seria brasileira. Agora essa perspectiva se converteu em incerteza, daí o ponto de interrogação no título do livro. Atualmente, nada aponta explicitamente para o aumento substantivo da presença do etanol como biocombustível em âmbito internacional a ponto de ser comercializado globalmente, com preços definidos globalmente, tornando-se assim uma commodity, como o petróleo. Ao mesmo tempo, há indícios de que o etanol venha a ganhar espaço na matriz energética. O tema da sustentabilidade pressiona a favor do etanol. O mercado nacional, que sustenta o setor, tem um limite. O setor só vai dar um salto definitivo de qualidade, extensão e importância quando o etanol entrar na matriz energética internacional.

Com relação ao segundo ponto, da segunda geração, abre-se a possibilidade de se produzir etanol em praticamente qualquer parte do planeta, basta haver biomassa. Embora haja viabilidade técnica e algumas unidades produtivas em operação, sendo a maior delas da Granbio iniciada em setembro do ano passado, há ainda incertezas e problemas. Então a viabilidade técnica e tecnológica ainda não está totalmente dada. Do meu ponto de vista é uma questão de tempo e de volume de recursos investidos nesse desenvolvimento. O problema principal não é técnico, é um problema de mercado, de organização da matriz energética, de decisão de investimento. O etanol de segunda geração só vai deslanchar se o etanol tiver espaço no mercado. O etanol pode ser uma solução, mas o contexto de incerteza leva à necessidade de se observarem os vários cenários possíveis. O espaço econômico de combustíveis para veículos com motores a combustão interna vai continuar existindo e representa oportunidades para o etanol.

2) Grandes produtores de etanol no mundo, os Estados Unidos e o Brasil tiveram trajetórias muito distintas nos últimos anos. O que explica essa diferença?

O lobby agrícola, especialmente do milho, nos Estados Unidos é muito forte. Os Estados Unidos têm uma máquina de capitalismo baseada em investimento capaz de atender a pressões como o aumento da mistura de etanol à gasolina. Nos Estados Unidos, em cinco, seis anos, a produção anual de etanol passou de 25 a 50 bilhões de litros, e assim o etanol entrou na matriz energética daquele país com alguma facilidade. No Brasil a produção de etanol passou de 16 para 24 bilhões de litros no mesmo período. Por quê? Primeiro porque bate no teto do que é o mercado brasileiro, dentro das condições dos preços. Essas condições colocadas nos últimos três anos refletem uma contenção dos preços do petróleo que atingiu os preços do etanol e fez com que a oferta batesse em um teto. É possível elevar o teto do mercado interno, mas não é isso que vai transformar o setor definitivamente. Se o Brasil tivesse que produzir etanol a partir do milho, buscaríamos a desculpa de que transformar o milho em etanol é muito mais difícil, porque é preciso quebrar o amido antes da fermentação, o que não ocorre com o etanol de cana-de-açúcar. Mas nunca ouvi uma reclamação dos produtores de etanol de milho nesse sentido.

A produção de etanol nos Estados Unidos dá conta de sua demanda, ainda que importe uma pequena parcela de etanol do Brasil. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, grande parte do etanol produzido é consumida internamente. A Europa está tendendo muito mais para o biodiesel, porque a produção agrícola europeia se concentra em oleaginosas e não em vegetais ricos em sacarose ou amido. As associações de produtores de oleaginosas na Europa pressionam pelo biodiesel e não pelo etanol. Restam então China, Índia e outros grandes consumidores de biocombustíveis, cujas decisões dependem de uma série de variáveis, sendo o eixo o preço do petróleo. Com a queda dos preços do petróleo no ano passado, mudou tudo. Entregamos a versão final do livro em agosto de 2014. Dali até recebermos a prova editorada, o contexto havia mudado muito em função da queda dos preços internacionais do petróleo, que caíram de patamares acima dos US$ 100/barril para metade disso. Então tivemos de refazer parte das conclusões do livro. Com isso, os países reveem suas políticas. O etanol continua sendo importante por causa dos marcos regulatórios e, principalmente, por causa da sustentabilidade.

3) As inovações potencias do setor sucroenergético em gestação atualmente têm um compromisso com a sustentabilidade?

Sim e não. Sim, porque talvez hoje seja a principal plataforma na qual se sustenta o crescimento dos biocombustíveis. Não, porque a força desse tema precisa enfrentar a força dos preços da matriz energética global baseada no petróleo. Então a sustentabilidade não é uma força que se reproduz economicamente. As ações se devem à existência de um marco regulatório, que não é capaz de alterar as forças que influenciam as decisões de investimento. Também é preciso considerar os movimentos da indústria automobilística, o carro elétrico, outras fontes alternativas além do etanol. As trajetórias tecnológicas estão competindo. Existe uma mudança de trajetória tecnológica, mas ainda na fase inicial de competição. Algumas soluções serão eleitas e continuarão no mercado, enquanto outras serão eliminadas. Não é possível prever quais serão as eleitas. Esse é um sistema complexo em que as variáveis não são preditíveis. Por outro lado, ao observarmos o que as empresas fazem atualmente em termos de inovação, a sustentabilidade é o tema no qual há maior volume de investimentos. Mais até do que o tema da produtividade. Foi isto o que vimos no trabalho do Nagise.

4) Diante do avanço dos Estados Unidos na área de energia, especialmente o etanol de milho e o gás de xisto, em que medida o argumento da sustentabilidade pode influenciar as ações do setor sucroenergético no Brasil?

O etanol de milho e o gás de xisto nos Estados Unidos são exemplos de como as condições podem mudar rapidamente. Seis anos atrás o xisto representava 2% do consumo de gás natural nos Estados Unidos, hoje seu consumo chega a 25%. Mudar uma matriz dessa maneira, com essa rapidez, deixa o mundo atônito. Nenhum outro país tem essa capacidade de resposta. Com relação ao etanol, a produção anual duplicou nesse período. E isso a despeito das críticas quanto à sustentabilidade, no sentido ambiental, porque na comparação com gasolina e diesel, tanto o etanol de milho como o gás de xisto são considerados males menores.

5) Do seu ponto de vista, a cadeia de produção do etanol combustível brasileiro pode ser considerada sustentável? Suas bases apoiadas em grandes propriedades de terras e grandes empresas multinacionais seriam incompatíveis com a sustentabilidade?

A questão da sustentabilidade é sempre relativa. Como disse, em comparação com combustíveis fósseis líquidos o etanol, sendo renovável, é sustentável. Isto não significa que impactos negativos não estejam presentes, eles estão, basta olhar o horizonte quando se viaja pelo estado de São Paulo, até onde a vista alcança, é cana que não acaba mais. Entretanto, quando fizemos o diagnóstico sobre a situação da inovação nas empresas do setor, verificamos que as inovações tecnológicas e não tecnológicas mais frequentes na última década têm objetivo ambiental. Isso chamou muito nossa atenção, o ambiental foi mais frequente que a produtividade, por exemplo, e muito disso se deve aos progressos dos marcos regulatórios no Brasil e no mundo. As empresas estão investindo para atender às certificações, senão não há a menor chance de expandir os mercados internacionais. Isto é bom, do ponto de vista da sustentabilidade. Entretanto, não quer dizer que não haja problemas dessa natureza. O livro tem dois capítulos relacionados à sustentabilidade, com foco no aspecto ambiental. Há muitas variáveis a considerar e o tema é controverso.

6) O que poderia justificar a postura contraditória das políticas públicas brasileiras para o setor sucroenergético?

Essa pergunta seria para a nossa presidente responder. Porque é muito difícil entender o que aconteceu nos últimos quatro anos na política energética do Brasil, e não apenas de combustíveis, mas também energia elétrica. A estrutura de produção de energia no Brasil se desorganizou de tal maneira com a promessa do bilhete premiado do pré-sal que acabou se transformando em um problema. As políticas pró-etanol minguaram. O PAISS, do BNDES, é um programa muito bom, mas insuficiente para sinalizar qualquer mudança na nossa matriz. Falta escala. Então há muitas contradições. A presidente Dilma optou por controlar a inflação com o preço da gasolina na bomba apostando no pré-sal e em prejuízo do setor de etanol. Afinal, o petróleo rende royalties, o etanol não. E o volume financeiro movimentado pelo setor de petróleo é muito maior do que o do setor sucroenergético.

7) Algumas empresas do setor sucroenergético têm buscado ações para aumentar sua produtividade, mas não ainda a maioria delas. Qual é o perfil das empresas que conseguem se preparar para as exigências do mercado?
Intuitivamente, poderíamos afirmar que são os grandes capitais nacionais e internacionais que conseguem investir em produtividade e ganhar melhores posições no mercado. Mas isso é verdade em parte. Embora a maioria desses grandes capitais apresente de fato mais iniciativas de investimentos em tecnologia e profissionalização da gestão da inovação, há empresas com esse perfil que não assumem essa iniciativa. Por outro lado, nem sempre os tradicionais usineiros do setor têm uma postura conservadora, havendo casos em que eles realizam investimentos e diversificação da produção com resultados positivos em produtividade. O que é espantoso ainda é termos uma produtividade média em patamares muito baixos. No início dos anos 1980, a média era de 58-60 toneladas de cana colhida por hectare. Hoje, mais de trinta anos depois, a produtividade média é de 68-70 toneladas de cana por hectare. Existem produtores que registram produtividade de 90, 100 toneladas por hectare, mas não é o padrão do setor. Há produtores com produtividade de 50 toneladas por hectare. Existe um conjunto de tecnologias na prateleira, mas a maioria dos produtores não investe. Os pequenos produtores têm menos condições de investir e trabalham com margens muito menores. Muitos fecharam, algo como 70 usinas a menos nos últimos três anos. Para os grandes capitais, a retração do mercado e a falta de perspectivas de crescimento desestimulam os investimentos no setor. Os grandes capitais apostam em diversos caminhos e o etanol é um deles.