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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Mecanização (ou não)

O tempo voa e 2015 já está terminando. Mas o Remoenda ainda traz a última postagem do ano, em que discuto a mecanização das operações nos canaviais, em especial da colheita. O tema já rendeu muitas opiniões conflitantes envolvendo aspectos ligados à sustentabilidade e levou à redução drástica das queimadas no Estado de São Paulo. No entanto, ainda há confrontos entre práticas e normas legais.

Em agosto e setembro de 2015, a União dos Produtores de Bioenergia (UDOP), por meio da TV UDOP, lançou uma série de quatro programas, chamada "Era da mecanização da cana: desafios e oportunidades". Os programas abordam as transformações ocorridas na produção de cana-de-açúcar em decorrência do processo de mecanização associado às determinações legais pelo fim das queimadas nos canaviais paulistas, conforme o Protocolo Agroambiental firmado em 2007. A legislação antecipou o fim das queimadas de 2021 para 2014, nas áreas mecanizáveis, e de 2031 para 2017, nas áreas não mecanizáveis.

Os três primeiros programas da série abordam os temas meio ambiente e trabalhoprodutividade agrícola e tecnologias. O último programa trata do futuro da mecanização do setor. A série destaca impactos positivos da mecanização para o meio ambiente e mudanças na força de trabalho, com redução da quantidade de empregados e aumento do nível de capacitação exigido. No que diz respeito à produtividade, o impacto inicial negativo deve-se às dificuldades de adaptação à mecanização, mas os produtores buscam reverter essa tendência por meio da adoção de tecnologias mais adequadas e inovações, como novas variedades de cana, colhedoras adaptadas, viveiros de mudas, sementes de cana (com lançamento previsto para 2017) e VANTs (veículos aéreos não tripulados) para auxiliar no mapeamento da área cultivada. O aproveitamento da palha para a produção de bioeletricidade e etanol de segunda geração é um ponto positivo decorrente dessa mudança. São entrevistados pesquisadores do CTBE, CTC, UFSCar, produtores, gerentes e diretores de empresas como a Alcooeste, Grupo Clealco e Raízen.

Minas Gerais na contramão

Duas denúncias do Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF/MG) em meados de 2015 chamaram a atenção para crimes relacionados a queimadas e condições de trabalho na atividade canavieira no Estado.

A denúncia por redução de trabalhadores à condição análoga à de escravo e formação de quadrilha recai sobre a quatro empresários paulistas de um grupo econômico composto pelas empresas Alvorada do Bebedouro S/A Açúcar e Álcool, Absolut Participações Ltda, Agrícola Monções Ltda e Asthúrias Agrícola Ltda, conforme relata notícia do MPF. "Durante fiscalizações realizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Polícia Federal nos anos de 2008, 2011 e 2012, foram encontrados, no total, 2.637 trabalhadores submetidos a regime de trabalho escravo", relata a matéria.

No tocante à denúncia por crime ambiental dirigida à Itaiquara Alimentos S/A, atual denominação da Usina Itaiquara de Açúcar e Álcool S/A, as práticas de queimadas ferem a Deliberação Normativa nº 133/2009 do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM), que proíbe a queima controlada da cana-de-açúcar na zona de amortecimento de unidades de conservação. A queima da cana-de-açúcar realizada pela Itaiquara teria causado graves danos ambientais ao Parque Nacional da Serra da Canastra e à sua respectiva Zona de Amortecimento, com impactos também à saúde dos trabalhadores e populações vizinhas. Diz a notícia publicada no site do MPF:
Laudo técnico elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) esclarece que o uso do fogo para limpeza de canaviais "provoca a destruição e a degradação de ecossistemas, tanto nas lavouras como próximo a elas, além de ocasionar a liberação de poluição atmosférica altamente prejudicial à saúde, afetando todo o entorno da região canavieira".

Como se vê, ao lado de avanços ainda há conflitos de interesses e progressos pendentes para promover a sustentabilidade da atividade canavieira no Brasil. Taí um bom desejo para o setor em 2016.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Biotecnologia canavieira - banco genético

Por ser um organismo híbrido, com um genoma extenso e complexo, a cana-de-açúcar apresenta um grande desafio para o melhoramento genético. A criação de variedades transgênicas tem sido estudada, como já divulgamos neste blog, mas os resultados não são imediatos, com previsões para os próximos anos.

Recentemente, a Agência FAPESP e o Canal Jornal da Bioenergia publicaram matérias sobre a criação de um banco genético brasileiro da cana-de-açúcar.

A matéria da Agência FAPESP, de 29 de julho, destaca a possibilidade de criação de um programa de melhoramento genético da cana-de-açúcar visando melhorar sua produtividade. Entre as ações realizadas no Brasil nos últimos anos estão o Programa BIOEN da FAPESP e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol – um dos INCTs apoiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo. Os pesquisadores participantes do programa começaram, nos últimos anos, a desenvolver um banco de dados para armazenamento de informações do genoma da cana-de-açúcar. "Quando for concluído, o banco de dados genéticos da cana-de-açúcar possibilitará, eventualmente, incluir a transgenia (manipulação genética) nos programas de melhoramento da planta", diz o texto de Elton Alisson.

A notícia do Canal Jornal da Bioenergia, publicada em 28 de junho, informa que o Brasil será sede de um novo banco genético de cana, com variedades de todo o mundo. Haverá um consórcio entre entidades e empresas pesquisadoras brasileiras, lideradas pelo IAC, para implantar e manter o banco, tecnicamente chamado de Germoplasma. O banco será importante para superar as limitações de acesso, por pesquisadores da América Latina, a informações dos dois bancos genéticos da cana existentes, um na Índia e outro nos Estados Unidos. Segue trecho da notícia:
"A criação do Germoplasma no Brasil favorecerá os pesquisadores latinos e contribuirá para o desenvolvimento de variedades mais resistentes a doenças e também mais produtivas, pois ele estará aberto para todos", explica [Raúl] Castillo [coordenador da seção de Melhoramento Genético e Germoplasma da International Society of Sugar Cane Technologists]. Marcos Landell, do IAC, destaca que o banco deverá contar com mais de duas mil variedades oriundas de todo o mundo e acredita que o consórcio receberá o apoio dos principais centros de pesquisa e empresas que trabalham com melhoramento genético do país. "Cada centro tem seu foco de pesquisa e pode contribuir muito com suas variedades para o banco genético", ressalta Landell. 
A previsão é que, até em três anos, o novo banco genético entre em funcionamento no Centro de Cana IAC-APTA - Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio Cana, do Instituto Agronômico (IAC), sediado em Ribeirão Preto.
Fiquei em dúvida se as matérias tratam da mesma iniciativa ou não. Alguém aí sabe?

sábado, 13 de abril de 2013

Primeira variedade transgênica

O Canal Rural anunciou no dia 3 de abril que a primeira variedade de cana-de-açúcar transgênica deverá ser lançada no mercado em 2017-2018. A coordenadora de biotecnologia do CTC, Sabrina Chabregasa,  informa que são necessários pelo menos 5 ou 6 anos para o desenvolvimento de uma nova variedade. É o caso da inclusão de características mais simples, como a resistência a insetos, que ocorre por meio da introdução de um gene. Para características mais complexas, levam-se cerca de 8 anos de pesquisas e testes até que a nova variedade seja comercializada.

A cana transgênica promete gerar aumentos de produtividade e dos teores de sacarose da cana, além de resistir a condições climáticas adversas, como a seca e o excesso de chuvas em algumas regiões,  e ao ataque de pragas. Países como Brasil (que é o maior produtor mundial de cana), Indonésia, Argentina e China estão na corrida para lançar a primeira variedade de cana-de-açúcar transgênica.

Diante da necessidade de incremento na produção, o mercado pressiona os pesquisadores. No CTC, onde trabalham cerca de cinquenta pessoas ligadas diretamente à pesquisa, os acionistas são o próprio mercado produtor de cana-de-açúcar, que tem pressa para lançar novidades. Os estudos são regulados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, a CTNBio, e os trabalhos são todos submetidos a aprovação antes de chegar ao mercado.

Essa inovação favorecerá o bioetanol de cana-de-açúcar no que tange ao aspecto econômico, pois deverá levar ao aumento da produtividade. Minha dúvida é sobre o aspecto ambiental. Que impactos ambientais (positivos ou negativos) a cana transgênica traria? Quais análises têm sido feitas para identificar e mensurar esses impactos? Haveria também impactos sociais?

Assista ao vídeo da reportagem:


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mais máquinas, menos produtividade?

No dia 3 de abril o jornal Valor Econômico publicou três matérias sobre um tema muito controverso envolvendo os aspectos social e econômico da sustentabilidade do bioetanol. Novas relações de trabalho nos canaviais e redução da produtividade foram destacadas como fruto da mecanização das lavouras. Os títulos das matérias são "Mecanização avança, mas cana perde produtividade", "Cortador de cana sobrevive à mecanização" e "Com máquinas, diminui rendimentos de canaviais".

Faço aqui um breve balanço da discussão no contexto das controvérsias.

Situação:

  • Aumento da área de plantio de cana-de-açúcar (7 milhões de hectares no Centro-Sul na safra 2012/13; em 2000, 3,8 milhões de hectares)
  • Aumento da mecanização (colheita 85% mecanizada, no Centro-Sul; em 2000, a colheita era 25% mecanizada)
  • Com a mecanização, produtores com décadas de experiência no setor têm que "reaprender" o manejo da cultura 
  • Uma colheitadeira de cana substitui de 80 a 100 trabalhadores
  • No início da década passada, a colheita manual de cana chegou a demandar 750 mil pessoas em todo o país, 500 mil no Centro-Sul
  • Em 2007, quando se intensificaram as pressões ambientais no Centro-Sul, o número de cortadores na região já havia recuado para 284 mil
  • No Nordeste, os canaviais estão em áreas mais montanhosas, a mecanização é ínfima e o quadro não mudou muito
  • O Nordeste é responsável por 10% da produção brasileira de cana e emprega cerca de 330 mil trabalhadores na atividade

Controvérsia social:

  • A maior parte da mão-de-obra liberada pelo setor, não qualificada, foi absorvida pela construção civil (José Giacomo Baccarin, professor do departamento de Economia Rural da Unesp de Jaboticabal/SP)
  • Dos 80 mil cortadores que as 190 associadas da UNICA empregavam em 2007, 22,7 mil foram qualificados para novas tarefas, principalmente na própria indústria da cana, como operadores de máquinas, mecânicos etc. (UNICA - representante das usinas do Centro-Sul)
  • Mesmo em unidades com colheita e plantio 100% mecanizados, há atividades de campo que justificam a manutenção de trabalhadores (carpir o mato, limpar a terra e abrir fileiras de cana que serão colhidas em seguida pelas máquinas, colher cana plantada nas curvas onde a máquina não alcança)
  • Ainda há usinas e fornecedores de cana que não assinaram o protocolo agroambiental que antecipa o fim das queimadas para 2014 (a lei determina o prazo de 2017 para eliminação das queimadas em áreas mecanizáveis). Elas ateiam fogo nos canaviais, e contratam mais cortadores.

Controvérsia econômica:

  • As usinas e fornecedores de cana investiram R$ 14 bilhões para mecanizar a colheita nos últimos cinco anos
  • A produtividade dos canaviais caiu de 85 para 70 ton/ha nos últimos três a quatro anos, sendo 8 a 10 ton/ha em razão da mecanização e a diferença, efeito do clima (João Guilherme Iglézias, diretor da Agroterenas, uma das maiores fornecedoras de cana para usinas) 
  • Quando uma máquina de colher cana (com peso de 20 toneladas e custo médio de R$ 900 mil) quebra, a usina deixa de colher 500 toneladas de cana por dia 
  • Agora surgem variedades de cana mais adaptadas às máquinas (as que "ficam mais em pé" e brotam melhor sob a palha) (João Guilherme Iglézias)
  • o setor testa técnicas para reduzir a compactação do solo provocada pelas máquinas e reduzir as impurezas trazidas pela colheitadeira para dentro da usina
  • Os fornecedores de menor porte estão descapitalizados para investir em máquinas
  • A concentração de açúcar na cana (ATR - Açúcar Total Recuperável) caiu nos últimos anos na região com as melhores condições de clima e solo para a cultura (Ribeirão Preto, Sertãozinho etc). Na safra 2012/13, a concentração de ATR caiu a 138 kg/ton, sendo que o desempenho médio do ATR na região era de 145 kg/ton, com picos até acima de 160 kg/ton. (Luiz Carlos Tasso Júnior, produtor e diretor da Canaoeste, associação que representa 2,8 mil fornecedores de cana em 80 municípios)
  • Retomar os níveis históricos só seria possível com um avanço significativo na genética da planta (Luiz Carlos Tasso Júnior) 

Ao que parece, em termos econômicos, a mecanização teve impactos negativos no presente e deverá se justificar a partir dos desenvolvimentos tecnológicos em curso para aumentar a produtividade no futuro. Em termos sociais, o desemprego resultante da mecanização teria contado com atenuantes importantes, como a absorção de trabalhadores (os mais qualificados) para outras funções nas usinas e as contratações (dos menos qualificados) pelo setor de construção civil. Nesse ponto, vejo como fundamental o papel da educação na qualificação dos trabalhadores, e a necessidade de uma economia fortalecida para abrir novos postos de trabalho. É aí que as controvérsias do bioetanol têm efeitos sobre o público em geral, incluindo você e eu.